quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Solidão acompanhada


A maioria dos filósofos tinham demasiado apreço pela solidão. Penso que a solidão era melhor companhia, quando, refletindo sobre o existir não encontramos com quem partilhar reflexões, sejam elas imanentes ou transcendentes...Filósofo, poeta, pintor, todos, amantes dela: fiel companheira, parceira ideal nas discussões do existir, do sentir, do compreender, do ser.
Clarice a amou e desejou, não posso discordar:

Quero solidão...
Por mim, e por vós, e por mais aquilo que está onde as outras coisas nunca estão deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:  quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces ? - me perguntarão. - Por não ter palavras, por não ter imagem.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras ?
Tudo.
Que desejas ?
Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação ...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão !
Estandarte triste de uma estranha guerra ... )
Quero solidão.

Modigliani: paixões, cores e uma breve vida


Ao lado da obra de Modigliani, exposta no Museu da Filadélfia, ninguém pode imaginar o coração aos pulos que trazia em meu peito, depois da gafe de tentar tocar a obra e ser repreendida pelo guarda do andar.
Quem já não passou por uma destas? Diante da beleza da criatividade humana, da inspiração do amor, das cores da existência finita de todos nós, ficar encantado, hipnotizado, sensibilizado de tal forma que tudo ao redor parece desaparecer... Eu fiquei assim, ao bater os olhos no quadro, logo pude imaginar o belíssimo boêmio Modigliani dançando com uma taa de vinho entre os dedos, olhos fixos em sua amada e a tela entre ambos. A pintura não é bela esteticamente para alguns, mas, aos que conhecem a história, ahhh.
Quem me dera pintar algo significativo na tela da vida, educar com as cores da paixão e dançar com o tempo que me resta, uma canção que combine com o sabor do vinho.









segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Domingos



Houve um tempo em minha vida em que todo dia era Domingos, hoje, o nome do dia da semana não importa mais... Beijo e abraço cada um deles com a sensibilidade de quem espera com uma doçura louca, santa e lúcida o último. Contemplo os dias como indígenas em oração diante dos mistérios de uma Natureza continuidade do ser.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O mistério de nossa finitude

Éramos três irmãs em minha família: Rosângela, Roselaine e eu. Irmãs sempre distantes, com escolhas, opções tão diferentes, mas, jamais desunidas.
Em dezembro de 2010, minha irmã mais velha, Rosângela, faleceu.
Dezembro, tempo tão significativo, tempo de arrumar a casa com enfeites natalinos, presentes, luzes, cores, acender velas, preparar a ceia e acompanhar o Advento (tempo de espera do Novo). Mas, ao contrário de acolhermos o Menino Jesus ou o Papai Noel, como quando éramos crianças, na porta de nossa casa, a morte se vez visitante inesperada.
Foi minha irmã que me inspirou a escrever este texto sobre o mistério de nossa finitude. Somos finitos, palha, cisco existencial na poeira de dias que construimos e, ilusóriamente acreditamos dar sentido. Somos tolos que se apegam a mesquinharia das circunstâncias, desejos, mágoas, afetos desordenados... Somos humanos e insistimos em esquecer esta realidade.
Jamais esquecerei o riso de quem debocha da vida e das lutas do cotidiano que ela sempre trazia consigo, da irrelevância diante das preocupações e da cumplicidade com seus vícios. Em uma de minhas idas e vindas ao hospital comecei a "arrumar" o quarto em que ela estava, administrando a dor com minhas neuras pessoais, e ela me estendeu a mão, quase num fio de voz me provocando disse: "Deixa de ser neurótica, senta aqui, fica do meu lado, vamos fumar um cigarrinho?!"
Eu não parei e, ainda repreendi a idéia do fumar, palmas para minha douta ignorância.
É preciso administrar com lucidez a finitude dos dias, serenidade e paixão de mãos dadas devem acolher nossos passos na imanência de nosso viver. O tempo é agora, o amanhã jamais será eterno. Quando minha irmã fechou os olhos, ela abriu minha mente e coração para o resto de meus dias. Saudades e gratidão até, quem sabe, o reencontro.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Vamos ao Banquete? Aos jovens do Marista Ipanema...


Para os  meus sempre iluminados "alunos" que em nossa primeira aula de Filosofia perguntaram: " Estudar Filsofia pra quê?!" respondo fazendo uso das palavras de Luc Ferry - É valioso estudar Filosofia, ao menos um pouco, por dois motivos bem simples: primeiro é que sem ela, nada podemos compreender do mundo em que vivemos, segundo, do que se ganha em compreensão, conhecimento de si e dos outros por intermédio de grandes obras é vasta contribuição no clarificar de como viver melhor e mais livremente...
Eu sei que Filosofia é bem mais do que tudo isto, é convite apaixonado à um Banquete,  para sentarmos juntos e degustarmos sem pressa o que de melhor há no exercício do pensar que se devela em prática cotidiana. A mesa está pronta, todos estão convidados...
Aguardo com carinho!





domingo, 23 de maio de 2010

Meu quarto em Reading,PA

Revolvendo meus pertences, encontrei esta foto tirada em meu quarto no ano passado em Reading, Pensylvânia, quando lá estive em um tempo de Graça e aprendizagem. Muito espaço, comodidade, segurança e serenidade... Incontáveis vezes, sentava naquela poltrona e contemplava a neve que pousava silenciosamente em minha janela, fazia frio e escurecia e eu então, aquecia uma água e sovava o mate - tradição gaúcha para vencer a solidão em outras estâncias.
Conheci pessoas queridas, as quais jamais meu coração deixará de visitar.
Hoje, observando a foto deste quarto, volto meu olhar para o quarto em que me encontro, a diferença é estarrecedora. Minúsculo, desconfortável, inseguro, e de um barulho infernal que invade de fora e faz com que as paredes estremeçam.
Mas não estou lastimando esta mudança.
Reflito agradecida a metamorfose que vem ocorrendo dentro de mim, da maturidade que as escolhas e os diferentes espaços estão em mim realizando. Aqui também há pessoas queridas.
Não observo mais a neve - imagem indescritível, acolho hoje a parede do muro que sufoca minha atual janela e, pelas frestas dele, percebo a claridade da noite que insiste em me visitar, talvez, por saber o quanto almejo a mesma.
E quando a tristeza tenta me vencer neste tempo de travessia, murmuro para mim mesma a frase de Santo Agostinho: "Você precisa se esvaziar do que acumulou dentro de si, para poder se preencher com aquilo de que você está vazio".