terça-feira, 6 de julho de 2010

Vamos ao Banquete? Aos jovens do Marista Ipanema...


Para os  meus sempre iluminados "alunos" que em nossa primeira aula de Filosofia perguntaram: " Estudar Filsofia pra quê?!" respondo fazendo uso das palavras de Luc Ferry - É valioso estudar Filosofia, ao menos um pouco, por dois motivos bem simples: primeiro é que sem ela, nada podemos compreender do mundo em que vivemos, segundo, do que se ganha em compreensão, conhecimento de si e dos outros por intermédio de grandes obras é vasta contribuição no clarificar de como viver melhor e mais livremente...
Eu sei que Filosofia é bem mais do que tudo isto, é convite apaixonado à um Banquete,  para sentarmos juntos e degustarmos sem pressa o que de melhor há no exercício do pensar que se devela em prática cotidiana. A mesa está pronta, todos estão convidados...
Aguardo com carinho!





domingo, 23 de maio de 2010

Meu quarto em Reading,PA

Revolvendo meus pertences, encontrei esta foto tirada em meu quarto no ano passado em Reading, Pensylvânia, quando lá estive em um tempo de Graça e aprendizagem. Muito espaço, comodidade, segurança e serenidade... Incontáveis vezes, sentava naquela poltrona e contemplava a neve que pousava silenciosamente em minha janela, fazia frio e escurecia e eu então, aquecia uma água e sovava o mate - tradição gaúcha para vencer a solidão em outras estâncias.
Conheci pessoas queridas, as quais jamais meu coração deixará de visitar.
Hoje, observando a foto deste quarto, volto meu olhar para o quarto em que me encontro, a diferença é estarrecedora. Minúsculo, desconfortável, inseguro, e de um barulho infernal que invade de fora e faz com que as paredes estremeçam.
Mas não estou lastimando esta mudança.
Reflito agradecida a metamorfose que vem ocorrendo dentro de mim, da maturidade que as escolhas e os diferentes espaços estão em mim realizando. Aqui também há pessoas queridas.
Não observo mais a neve - imagem indescritível, acolho hoje a parede do muro que sufoca minha atual janela e, pelas frestas dele, percebo a claridade da noite que insiste em me visitar, talvez, por saber o quanto almejo a mesma.
E quando a tristeza tenta me vencer neste tempo de travessia, murmuro para mim mesma a frase de Santo Agostinho: "Você precisa se esvaziar do que acumulou dentro de si, para poder se preencher com aquilo de que você está vazio".

terça-feira, 6 de abril de 2010

O sol de Diógenes e a sombra de Alexandre


Uma das mais belas histórias pertencente ao período dos clássicos gregos  é o relato do encontro entre Alexandre "o Grande" com o filósofo Diógenes Laércio. Não que Platão e Aristóteles não tenham sua contribuição relevante, mas, é interessante que também possamos voltar nossos olhos, mente e coração para alguns pensadores que em nossos relatos históricos e filosóficos foram deixados à margem.
Diógenes foi uma figura marcante para o movimento conhecido como "cinismo", Platão o chamara de "Sócrates enlouquecido". Os cínicos tinham dentre suas muitas regras elementares a ruptura radical com o mundo numa situação limite aonde convinências sociais, opinião e dinheiro eram desprezados numa provocadora suposta liberdade de expressão. Os cínicos haviam descoberto o sentido da existência no desapego e na proximidade com o estado de natureza, o sol que os impulsionava à vida, mesmo que em algumas circunstâncias fossem causas de desconforto social, era de uma luminosidade autêntica que potencializava nos mesmos, suas escolhas, concepção de vida e práxis cotidiana.
Diógenes vagava pelas ruas com seu alforge, jogava fora sua tijela e taça dormindo em um barril abandonado no centro da Pólis... até que um dia, reconhecido por seus exercícios de natural desapego e grandiosa sabedoria, Diógenes recebera a ilustre visita do jovem Alexandre Magno, o macedônio, destemido e amado por seu empenho heróico de tornar a Grécia o Império do mundo em suas descobertas, conquistas e encontros multiculturais. Para os gregos, o sol era o próprio Alexandre.
Assim, o conquistador se aproxima do homem sábio e oferece ao velho Diógenes o que ele desejar, qualquer presente em virtude do reconhecimento de seu modo de vida...
Ora, Diógenes venerava o sol como muitos gregos, mas, o seu sol era aquele que aquecia os dias já marcados pela sua idade, iluminava os seus caminhos e brilhava gratuitamente para todos cidadãos da Pólis, sem sair de dentro do barril onde pernoitava, ergueu os olhos ao jovem Alexandre e disse: "Uma coisa só peço... saia da frente de meu sol e deixe de fazer sombra em minha efêmera morada".
Quantos conquistadores ao longo de nossa história continuaram e, continuam ainda,  fazendo sombra à verdadeira sabedoria.


quarta-feira, 31 de março de 2010

A bela oração de Clarice

Meu Deus, me dê a coragem - Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

terça-feira, 30 de março de 2010

Os caminhos da moral contemporânea...

Ressurreição com sabor de chocolate


Jesus está vivo! Superou o desafio da morte e nos deixou a belíssima mensagem de que a vida é repleta de travessias pascais que podemos e devemos passar. Quando maturamente consideramos a mensagem pascal destes dias, concluímos que a vida é uma sequência infinda de mortes e ressurreições cotidianas as quais todos passamos indiferente de credos, cores e raças.
Mas aí, eis que surge outro elemento na celebração pascal da vida: o coelho. Criatura que jamais pôs ovo algum e, para complicar sua missão, deve fazê-los de chocolate. Coloridos, surpreendentes, saborosos e a cada ano mais caros. Uma fantasiosa crença cultivada desde cedo no coração de nossa infãncia para o desespero do bolso de muitos pais. Como frustrar o olhar encantado de uma criança que na manhã de domingo procura o ninho que foi construído na escola, na família ou na solidão de seus sonhos? A Páscoa torna-se festa altamente lucrativa, mas também, seriamente destrutiva para os que estão à margem da sociedade do consumo que estamos inseridos.
Resta aos muitos que não podem participar desta alegria, aguardar  dos que receberam a visita do coelho generosamente, as sobras de seus ninhos e o discurso falido da solidariedade. Talvez seja esta morte, a da dignidade humana, a mais dolorosa e difícil de se experienciar ressurreição.
Jesus está vivo, venceu a morte! O coelho chegou, vence o consumo.

sábado, 27 de março de 2010

Tagore ensina como encontrar Deus

" Deixa de cantar e entoar hinos e debulhar contas!
A quem estás adorando neste canto escuro e solitário de um templo de portas todas fechadas?
Abre teus olhos e vê: teu deus não está na tua frente, ele está ali onde o lavrador está lavrando o solo duro e onde o operário quebra pedras para abrir estradas. Com eles, no sol e na chuva a sua veste coberta de poeira.
Tira teu manto sagrado, e como ele, desce para a terra poerenta! Sai de tuas meditações e larga tuas flores e incenso.
Qual  é o problema de tuas roupas ficarem esfarrapadas e manchadas?
Encontra-O e fica com Ele, na labuta e no suor do teu rosto".