domingo, 14 de março de 2010

A necessidade das idéias claras segundo Pierce


O filósofo Charles Sanders Pierce, influenciado pela proposta cartesiana de reconstruir a filosofia e superar o hábito dos escolásticos de verem na autoridade a fonte última da verdade, reforça em sua obra, a necessidade de um método cuja fonte natural dos princípios verdadeiros está na mente humana, na consciência. Para que a consciência pudesse oferecer-nos verdades fundamentais e decidir do que fosse agradável à razão uma condição de verdade foi assinalada por Descartes: serem claras as idéias. Mas, como tornar clara as nossas idéias? Como distinguir entre uma idéia clara ou obscura?
Para Pierce uma idéia clara é definida como "aquela apreendida de forma tal que se torna possível reconhecê-la em qualquer situação sem confundí-la com qualquer outra dita obscura". Uma clareza de pensamento é sumamente emergente em nossos dias, clareza já notada e admirada na filosofia. Pierce ainda acrescenta "não se escreveu ainda a página da História que nos diria se tal povo, a longo termo, prevalecerá ou não sobre povo cujas idéias (tal como palavras de sua língua) sejam poucas, mas que possua domínio completo sobre essas poucas idéias. No que tange ao indivíduo, não pode haver dúvida de que umas poucas idéias claras valem mais do que muitas idéias confusas".(PIERCE,1975)Conhecer o que  pensamos, dominar nossas próprias tensões daria sólido alicerce a uma pensamento lúcido, ponderado e edificante numa não tardia maturidade intelectual, já que esta costuma chegar tarde numa infeliz acomodação da natureza, pois para o ser humano que já realizara parte de seu trajeto existencial e os erros já produziram seus respectivos efeitos a clareza é de menor utilidade, do que para aquele, aquela, que tivesse o caminho à sua frente. Infelizmente, lastima o pensador, esta lição é acolhida apenas pelos tímidos e de idéias pobres, muito mais felizes que os que desamparadamente chafurdam no rico lodo das concepções. Que terrível constatação a de ver que uma única idéia obscura, furtivamente instalada no espírito do indivíduo, pode, por vezes, agir como obstáculo de matéria inerte numa artéria, impedindo a nutrição do cérebro e condenar sua vítima a consumir-se no total domínio de seu vigor intelectual. Vigor como de indivíduos que ao longo dos anos, acariciam vagas sombras de idéias, idéias sem sentido, falsas, e amaram as mesmas apaixonadamente, fazendo delas companheiras de todas as horas chegando a consagrar suas forças e vida... Entretanto, muitos despertaram em certa manhã gloriosa e verificaram que elas se tinham ido, muitos infelizmente, ao perceberem tal ausência, deixaram também que desaparecesse a essência de suas próprias vidas. Chegada era a aurora da dúvida e do desvelar das crenças.

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